António Lobo Antunes e as suas raízes familiares na Póvoa de Lanhoso

António Lobo Antunes, famigerado escritor e psiquiatra português, vencedor do Prémio Camões em 2007 e com trabalhos como “Memória de Elefante” e “Eu Hei-de Amar Uma Pedra” falou sobre as suas raízes familiares na Póvoa de Lanhoso, na sua crónica publicada na Revista Visão no dia 11 de Janeiro.

Fique aqui com um excerto da crónica:

“Os Lobos fugiram de Portugal no século XVII, por serem judeus, numa primeira fase para a Holanda e depois para o Brasil, onde se mantiveram até ao fim do século XIX, princípios do século XX, quando a minha bisavó casou com o meu bisavô, João de Brito Antunes, que não era judeu mas cujo pai um camponês muito pobre da Póvoa do Lanhoso foi mandado de uma aldeia perto da Póvoa para o Brasil, com oito anos, pelo pai, a fim de tentar que a criança não acabasse à fome. Não sei como se amanhou mas acabou rico e farto de dias com a borracha do Amazonas.”

“A história, aí, começa no Minho, Póvoa de Lanhoso, Frades, onde um outro pobre camponês analfabeto pegou no filho de 12 anos e, para o salvar da miséria, meteu-o, sozinho, num veleiro para o Brasil, onde a criança não conhecia ninguém. Imagine-se um garoto a desembarcar no Rio sem, literalmente, nada. Deve ter arranjado, sei lá como, um trabalho qualquer, não imagino o quê, e foi subindo devagarinho na direcção da Amazónia, de emprego humilde em emprego humilde, até ao norte, onde a borracha e o negócio da borracha começavam a crescer. Chamava-se Bernardo António Antunes e devia ser um rapaz corajoso e cheio de iniciativa porque, ainda adolescente, principiou a prosperar. Casou com uma senhora chamada Josefina e enriqueceu, ao que parece, com rapidez, ao ponto de mandar lavar a roupa a França e fazer anualmente tratamentos de águas em Vichy. Tornou-se riquíssimo, o Imperador fê-lo Visconde da Nazaré, mandou muito dinheiro para a sua terra e quis vir morrer a Portugal. Boa parte dos terrenos onde são agora o Rio e São Paulo pertenciam-lhe.”

“A minha bisavó casou com um português, João de Brito Antunes, filho de um homem da região da Póvoa de Lanhoso, cujo pai, camponês pobre à beira da miséria, abandonou Portugal aos doze anos, a mando do pai dele, para fugir a um futuro de fome, o qual, após várias peripécias, se estabeleceu no Pará, e acabou rico com a borracha da Amazónia. De uma das últimas vezes que estive em Braga fui à Póvoa visitar as minhas raízes. Era domingo de manhã e não havia ninguém nas ruas, só eu a cheirar as raízes que tenho. E voltei para Braga, triste de não encontrar nenhum Antunes e com o sentimento de uma parte minha continuar ali. À saída abri a janela do carro, gritei:

– Sou de cá e senti o silêncio como uma bofetada injusta na cara.”

 

 

 

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