Miguel Esteves Cardoso no Restaurante “O Victor”

Miguel Esteves Cardoso, crítico, escritor e jornalista português escreveu sobre o Restaurante O Victor na freguesia de S. João de Rei.

Neste fim semana publicou no Público um texto sobre a experiência no já conhecido restaurante povoense.

“Razão tinha Volver, um tango que Carlos Gardel cantou: vinte anos não são nada. Há vinte anos que não ia ao restaurante Victor em São João do Rei. Voltei lá no fim-de-semana passado. Estava tudo na mesma. Não mudou nada. É um milagre. Deus afinal existe.

O bacalhau assado com batatas a murro continua a ser o melhor que alguma vez comi. As batatas a murro são tão perfeitas que era capaz de almoçá-las sem bacalhau e sem nada mais. As postas são do tamanho de violinos, custam 27 euros cada uma e dão para três pessoas comedidas ou duas gananciosas.

O senhor Victor Peixoto uma vez disse-me numa das noitadas que lá passei que os portugueses são muito fáceis de compreender: querem comer o melhor que há em doses gigantes por um preço baixo. O restaurante Victor consegue satisfazer todos os requisitos.

O vinho verde branco da casa, o mais barato, é daqueles vinhos de sede que é preciso controlar porque facilmente se arruma uma garrafa enquanto o diabo esfrega um olho.

O senhor Victor e as duas filhas Olga e Angelina recebem os clientes – todos amigos, novos e velhos – como se fossem da família. Têm um sentido de humor maravilhoso e brincam connosco como se não estivessem a trabalhar. Mas trabalham muito. Um restaurante perfeito como é o Victor só se consegue com muito bom gosto e muito trabalho.

O senhor Victor trabalha onde nasceu há oitenta anos. Há outro restaurante, o Saraiva, em Nafarros, em que António Saraiva se orgulhava de trabalhar onde nasceu.

Pense-se um pouco no assunto. O Victor é um restaurante dificílimo de encontrar numa aldeia, São João do Rei, que fica muito fora de mão. É linda e pacífica mas só se vai lá por causa do Victor.

Quando tinha 30 anos o senhor Victor decidiu abrir um restaurante a servir um prato – bacalhau assado com batatas – que é o prato mais popular e mais bem feito em todo o Minho.

Que bacalhau teria ele de servir para levar lá as pessoas que vivem em Braga e Guimarães, as duas cidades onde o bacalhau assado é mais delicioso e barato? Só o melhor do mundo. Que é o que eles fazem.

Outro segredo óbvio é a especialização. Têm outro prato de carne (muito bom) e pode encomendar-se um cabrito perfeito. Enquanto se espera há bolinhos de bacalhau irrepreensíveis e, quando se acaba, há um leite creme que deixa todos os especialistas em leite creme calados de tão contentes.

Mas a grande especialização é o bacalhau assado. Não o fazem doutra maneira. Não há maneira de aldrabar. O bacalhau assado tem de ser muito gordo, muito bem curado e muito bem demolhado. O bacalhau do Victor é demolhado num ribeiro de água gelada, com a água sempre a renovar-se.

Há ainda outro trunfo: a escolha dos bacalhaus e a maneira de cortar. O senhor Victor começou a trabalhar na mercearia do pai aos dez anos.

Foi com dez anos que recebeu a primeira lição na maneira de escolher bons bacalhaus. A partir daí começou a especializar-se em bacalhau.

Falar com ele sobre bacalhau é como falar de futebol com José Mourinho. Aquilo que ele não sabe sobre bacalhau cabe na cabeça de um alfinete: que o bacalhau da Terra Nova é mais salmonado, que a gordura do bacalhau depende da frieza das águas e que ao bacalhau da Noruega não basta ser da Noruega…”

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